segunda-feira, 16 de junho de 2008

Música Diversa

MÚSICA DIVERSA...

A bricolagem, o pastiche, o sampler, em suma a idéia de deslocar determinado elemento do seu contexto, não é de forma alguma novo na história da arte. É também muito comum hoje em dia escutarmos bandas definirem seu próprio som afirmando: “temos influências muito variadas e isso tudo se reflete no nosso som”. A própria Lapa parece a primeira vista um lugar onde as diferenças estão todas em diálogo permanente. No entanto, não sei se é exatamente isto o que acontece. Quando não é uma determinada casa de show que possui seu nome claramente associado a um estilo de música específico, as próprias festas tratam de providenciar um tema bastante claro. Não considero isso algo necessariamente ruim, apenas quero chamar a atenção para o seguinte: o fato de encontrarmos hoje na Lapa uma certa convivência das diferenças, não garante por si só o surgimento de uma realidade onde as manifestações culturais em si próprias sejam pautadas pela diversidade. Eu sei que muitos daqueles participantes de movimentos culturais pautados pela interação de linguagens podem se sentir ignorados, mas basta alguém familiarizado com as “galeras cariocas” passear pela Lapa durante uma sexta-feira à noite para notar claramente a segmentação das atrações disponíveis e do público presente. Algo que me motivou a escrever este texto é exatamente a minha constatação de que existem no Rio de Janeiro diversas bandas que buscam realizar uma arte pautada pela interação de influências, e assim o fazem de maneira muito bem feita. No entanto, dependendo da composição da mistura, a ausência de um rótulo faz com que a divulgação do trabalho artístico seja dificultada, uma vez que ele não está identificado de maneira direta com nenhuma tendência específica - choro, samba, raggae, funk, rock, etc. Isto ocorre devido à tendência das festas de buscarem temas específicos que possam servir de atrativo para galeras que já se identificam com determinados estilos. Assim, os produtores buscam atrações que estejam o máximo possível dentro daquilo proposto inicialmente. Em outras palavras, fazem o bê-a-bá do marketing, se direcionam a um público alvo. É claro que existem outros problemas muito sérios que dificultam o acesso de certos projetos a espaços privilegiados de divulgação, o estilo da manifestação é apenas um dos muitos elementos que podem contribuir ou não para o sucesso de um empreendimento artístico. No entanto, acho que todos os outros problemas já são debatidos com uma certa freqüência por todos aqueles que produzem eventos culturais no Rio de Janeiro.

PEGUE O SEU GRUPINHO E VÁ PRA FORA...

Muitas bandas, DJs, grupos de teatro, etc estão buscando na rua um lugar alternativo de manifestação. Fazem algo que provavelmente surgiu junto com a distinção entre público e privado: na ausência de lugar melhor, se expressam na rua. Descartando o fato de que ninguém vai ganhar dinheiro tocando na calçada, podemos pensar em uma infinidade de motivos para aqueles que querem mostrar o seu trabalho fazerem como diz a máxima: “Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé”. E isto é mais verdadeiro ainda para aqueles projetos pautados pela diversidade de linguagens, afinal o seu público vai ser composto por todos aqueles que estejam na rua no momento de sua apresentação: velhos, crianças, playboys, funkeiros, indies, emos, sambista, chorões, flamenguistas, tricolores, seja lá quem for. Ou seja, não estão ali escutando o artista por que pagaram para entrar em um determinado lugar onde supostamente deveria estar rolando um determinado estilo em determinada hora. Estão ali, na maioria das vezes, realizando tarefas cotidianas e não esperam se deparar com uma banda ou grupo teatral, sua disposição para o que está sendo apresentado é outra totalmente distinta do público pagante de um espetáculo convencional. Não acho que se apresentar na rua seja uma solução, mas na certa é um ótimo começo. E respeitados certos limites, acho que a cidade do Rio de Janeiro tem muito a ganhar com isso.

Bruno Muniz